La Red de Senderos

A Rede Trilhas

No dia 19 de outubro de 2018, uma iniciativa que vinha sendo tocada com paixão pela comunidade trilheira e servidores de unidades de conservação do Brasil inteiro finalmente ganhou sua certidão de nascimento. Naquela data o Ministro do Meio Ambiente, o Ministro do Turismo e o Presidente do ICMBio assinaram a Portaria Conjunta MMA/MTur 407, que cria a Rede Nacional de Trilhas de Longo Curso e Conectividade. Cerca de um ano depois, em 16 de agosto de 2019, durante o ABETA Summit em Ilhabela, foi criada a Associação Rede Brasileira de Trilhas, agrupamento de voluntários dedicado a implementar, manter, apoiar o Governo na gestão das trilhas brasileiras .

As trilhas de longo curso do Brasil estão sendo projetadas para serem bonitas e muito prazerosas, mas também estão sendo pensadas para gerar emprego e renda no seu entorno e, sobretudo, funcionar como ferramentas de conservação. Nesse caso, seu desenho é feito para que funcionem como corredores funcionais de fauna, impedindo a fragmentação total das unidades de conservação e permitindo o fluxo de espécies entre elas.

No âmbito do ICMBio e do MMA, a tarefa tem sido propor, planejar, capacitar os parceiros (estados, municípios e sociedade civil), definir os traçados (com ajuda das APPs e Reservas Legais que por meio de seu uso turístico passam a também ter valor econômico tangível) e implementar trilhas de longo curso que também sejam utilizadas pela fauna para se movimentar entre áreas núcleo, que podem ser unidades de conservação das três esferas de governo.

Como bem demonstram exemplos de outros países, projetos dessa envergadura dependem muito menos de dinheiro do que de significativa participação e apoio local, com governança compartilhada entre instituições e sociedade civil (organizada ou não) e forte sensação de pertencimento. Trilhas de longo curso tendem a dar certo quando são planejadas de baixo para cima pela comunidade trilheira, de maneira que os louros e o reconhecimento de seus sucessos não sejam exclusivos de uma pessoa, uma ONG internacional ou de um seleto grupo que não tenha conexão com aqueles que manejaram e demarcaram o caminho com o custo do próprio suor.

Do ponto de vista da conservação, estudos feitos na Appalachian Trail, cujos 3.600 km de extensão são o maior mega transecto do mundo, demonstram que trilhas de longo curso são ferramentas eficientes de conexão de paisagens. No caso em tela, pesquisas mostram seu uso como corredor entre áreas núcleo por diversas espécies de pássaros, borboletas monarca, ursos e veados entre outros animais.

Como atividade econômica, trata-se de atividade muito comum na Europa, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Argentina entre outros países. Somente na França, onde há 180 mil quilômetros de trilhas sinalizadas, calcula-se que 20 milhões de pessoas percorreram esses caminhos em 2013, quando foram vendidos 4,7 milhões de pares de botas de caminhadas nas lojas francesas. No mesmo ano, estudo feito pelo Comitê Regional de Turismo da Bretanha descobriu que 40 % dos turistas que viajam à região, estão em busca de trilhas de caminhada. Eles gastam, em média, 60 euros por dia. Já, em 2016 na Espanha, segundo dados do Anuário de Estatística Desportiva daquele país, as caminhadas em trilha, são o terceiro esporte mais popular, com 4 milhões de praticantes.

Dentre as trilhas europeias, cujo modelo tem sido umas das de inspirações para o Brasil, aquelas conhecidas como de longo curso, são desenhadas de modo a cruzar ou passar próximo a localidades rurais, incentivando o estabelecimento de albergues e pousadas, restaurantes, armazéns de produtos alimentícios e lojas de equipamentos de montanha. Assim, geram emprego e renda ao longo de um eixo contínuo, evitando a concentração de oportunidades em apenas um punhado de localidades.

Pesquisa realizada na Austrália em 2014, verificou que 35% dos caminhantes de longo curso pernoitam entre 3 e 20 noites, percorrendo um máximo de 201 km por caminhada. A mesma enquete verificou que nessas caminhadas, o gasto médio por ecoturista é de R$ 126 por dia.

Na Europa, o Sistema Europeu de Trilhas de Longo Curso, denominadas “E”, conta com doze rotas internacionais (E1 a E12), que juntas somam 55.000 km. Cada “E” tem mais de 3.000 quilômetros que mantêm ao longo de seu traçado a padronização da sinalização e manejo. Cada uma delas, entretanto, se subdivide em trechos menores, sendo formada pela soma de várias trilhas de longo curso regionais, com governança e estratégias de marketing e geração de emprego e renda próprias, em uma sequência na qual o fim de uma trilha regional coincide com o início da trilha regional subsequente.

A mais famosa delas, o Caminho de Santigo no nordeste da Espanha, percorrido em 2017 por 301 mil caminhantes, sustenta uma vasta rede de pequenos albergues, restaurantes e lojas de equipamentos, com seus benefícios espalhados ao longo de centenas de quilômetros. O padrão se repete nos outros países do continente. Segundo relatório de 2017 da Ramblers Association, naquele ano trilheiros ingleses gastaram £ 6,14 bilhões e a atividade gerou 245.000 empregos de tempo integral. Em 2008, o simples caminhar em trilhas gerou £ 2.8 bilhões na Escócia e £ 550 milhões no País de Gales.

A West Highland Way, trilha de 156 km na Escócia, foi percorrida em 2016 por 75.000 pessoas, que gastaram £ 3.5 milhões em cerca de 200 estabelecimentos comerciais que declararam ter seu sustento principal nos frequentadores daquela trilha. Ainda no Reino Unido, a trilha inglesa de 1014 km conhecida como South West Coast Path, gerou £307 milhões para a economia regional, com a geração de 7.500 empregos diretos. Em comparação, o custo de manutenção e manejo da South West Coast Path é de £500 mil por ano.

Com o objetivo de obter benefícios de recreação, conservação e geração de renda semelhantes no Brasil, a Associação Rede Brasileira de Trilhas está trabalhando para fortalecer a trilhas em nosso país, mesclando o que há de mais bem sucedido nos modelos norte-americano e europeu. Nesse contexto cada Trilha de Longo Curso Nacional, a exemplo da Trilha Oiapoque ao Chui, será o resultado da adição de uma série de trilhas regionais em que o final de uma coincide com o começo da seguinte. No total, uma trilha de longo curso nacional deve ser composta por um cardápio variado de opções que pode caber em férias de um mês, como o Caminho das Araucárias (entre Canela e o Parque Nacional de São Joaquim), ou em um período de férias de duas semanas, tal como a Trilha Transcarioca (12 dias de caminhada) e a Rota dos Faróis, ou ainda em um período inferior a uma semana, como a Rota Darwin, os Caminhos da Serra do Mar (4 dias) ou as voltas da Juatinga e da Ilha Grande. A mesma estratégia vale para o Caminho dos Goyases, composto pela soma de três trilhas regionais, cujo primeiro trecho, o Caminho de Cora Coralina, com 302 km entre Goiás Velho e Corumbá de Goiás já foi totalmente implementado e já começa a gerar emprego e renda, com hospedagem, transporte e alimentação.

A estratégia induz a uma fidelização do caminhante ou biker, que tende a separar diferentes períodos de suas férias, completando em cada uma delas uma trilha regional diferente, com o objetivo final de, ao longo do tempo, terminar a Trilha Nacional inteira, mas tendo objetivos intermediários claros que lhe dão um sentimento de missão cumprida a cada jornada anual. A ideia é propor ao trilheiro uma meta continuada, com objetivos semelhantes àquela do colecionador que vai paulatinamente completando sua coleção. A estratégia também permite que a Trilha de Longo Curso Nacional seja completada de forma que suas diferentes partes regionais possam ser caminhadas aleatoriamente sem um cronograma rígido, mas respondendo à disponibilidade de tempo e de oportunidades dos montanhistas. Essa é a maneira que a maioria das pessoas completam as grandes trilhas de longo curso do mundo, como a Appalachian Trail. Esses caminhantes são conhecidos como section hikers. A mesma lógica vale para as trilhas pensadas para bike, como a Rota das 10 Cachoeiras em Minas Gerais.

Enquanto grupos de voluntários aguerridos, o ICMBio e as instituições gestoras de Parques estaduais e municipais implementam e fazem a manutenção dos traçados, cabe ao Ministério do Turismo coordenar o fomento à criação de uma rede de locais de pernoite e alimentação, com a respectiva organização de um sistema de transporte de bagagem entre cada pousada, além de capacitação, apoio à sinalização fora das áreas protegidas e informações completas de alimentação, transfer e aluguel de equipamentos.

No último ano e meio, foram implementados 3.000 quilômetros de trilhas de longo curso no Brasil, em um ambicioso projeto de criar trilhas regionais como o Caminho da Serra do Mar, a Trilha Transcarioca, o Caminho de Cora Coralina, o Caminho das Araucárias, a Transespinhaço, a Trilha Chico Mendes entre outras dezenas de trilhas projetadas para conectar as unidades de conservação brasileiras, promovendo também a possibilidade de movimentação de fauna entre elas. Além da Trilha Nacional Trilha Transmantiqueira.

Com esse esforço, vai se consolidando a Rede Brasileira de Trilhas de Longo Curso que, a exemplo de suas irmãs mais velhas americana e europeia, ainda vai precisar de alguns anos para amadurecer e ganhar musculatura. Não é preciso esperar, contudo, para começar a percorrer os caminhos que já estão prontos, a exemplo da Trilha Transmantiqueira, da Trilha Transcarioca e do Caminho de Cora Carolina, onde turistas e aventureiros já estão aumentando significativamente a ocupação das pousadas e restaurantes.

A sinalização das trilhas da REDE foi disciplinada em manual oficial do ICMBio e segue as melhores práticas internacionais, tendo sido elogiada por especialistas da World Trails Network como o melhor modelo em uso no mundo. Ela usa pegadas amarelas sobre fundo preto em um sentido e pegadas pretas sobre fundo amarelo no sentido inverso. As pegadas usadas pela REDE seguem o princípio básico de que a sinalização tem que ser de fácil compreensão cognitiva e mantêm o mesmo padrão em todo o território nacional, ainda que tenham latitude suficiente para que cada trilha regional adote uma variação do padrão, individualizando cada trilha e emprestando a ela uma pegada/marca própria que também pode se transformar em artigos de venda como camisetas e bonés.

No projeto da REDE cada trilha regional tem sua própria pegada amarela e preta, além de governança e estratégia de emprego e renda próprias. A Rede Brasileira de trilhas foi inicialmente idealizada como desdobramento natural da Rede Carioca de Trilhas, projeto apresentado à Prefeitura do Rio de Janeiro em 1997 , que resultou na primeira Trilha de Longo Curso do Brasil, a Trilha Transcarioca , reconhecida oficialmente em 2017, por Decreto do Prefeito do Rio de Janeiro .

Ao adotar uma sinalização padronizada tem-se também o resultado de criar uma identidade visual “Trilhas do Brasil”. Assim, uma simples fotografia de um turista publicada em uma rede social servirá para divulgar não apenas aquela trilha, mas toda a REDE e, consequentemente o país como destino ecoturístico. Essa foi uma das razões pelas quais, em 2018, a Rede Brasileira de Trilhas foi uma das vencedoras do Prêmio Nacional de Turismo .

Vem trilhar as pegadas amarelas e pretas com a gente!

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